segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Mitologia Nórdica - Resumo

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Mitologia Nórdica


A mitologia nórdica (também chamada de mitologia germânica, viking ou escandinava) se refere a um conjunto de crenças e lendas dos povos escandinavos, incluindo aqueles que se estebeleceram na Islândia, onde a maioria das fontes escritas para a mitologia nórdica foi construída. Como veremos, sua influência se estendeu por toda a Europa, especialmente a Inglaterra, de onde pudemos apreciá-la em obras como O Senhor dos Anéis e Harry Potter. Mas meu primeiro contato com essa mitologia foi mesmo com os gibis de Thor (que, aliás, vai virar filme em 2011). Nessa primeira parte vou falar da cosmogonia nórdica, e de como os mundos estão estruturados, para na segunda parte falar mais dos personagens e suas lendas. Uma coisa que percebi é que há muita confusão entre nomes de lugares e raças, então procurei compilar o máximo de informações, e o resultado abaixo é o que me parece ser mais confiável:

No início havia o Nada (Ginnungagap), que remete à noção grega do "Caos". Um imenso vazio, que se estendia até o Norte, a Terra do Gelo (Niflheim), e o Sul, a Terra do Fogo (Muspell). Separadas pelo Nada, essas forças de frio e calor, contração e expansão, estavam inertes. Até que Deus, o Criador de todas as coisas, aquele que não tem nome e que é citado apenas na Criação e no fim dos tempos, respira, e suas baforadas unem frio e calor, compondo flocos de neve que foram se aglutinando até formar o primeiro ser: um gigante de gelo chamado Ymer, que deu origem a vários outros gigantes. Essas criaturas alimentavam-se do leite da vaca primordial Auðhumla que, por sua vez, alimentava-se lambendo o sal dos blocos de gelo. Numa dessas lambidas revelou-se a forma de uma nova criatura, cuja raça ficou conhecida como Aesir. Esse primeiro Aesir se chamava Buri, que teve (não sei como) um filho, Bor, que se casou com a filha de um dos gigantes e assim tiveram três lindos e importantes filhos: Odin, Vili and Vé. Esses três são simplesmente a Santíssima Trindade Nórdica, pois eles detêm o poder de trazer ordem ao Caos. Eles matam o gigante Ymer, dilaceram suas formas e com seus restos ajudam a compor o Universo (especialmente nosso mundo).

No centro do Nada está uma gigantesca
árvore chamada Yggdrasil, o eixo dos nove mundos. Suas imensas copas chegam aos céus, podendo dessa maneira sempre estar banhadas por uma luminosa nuvem que orvalha Hidromel (a bebida favorita dos deuses, que garantia a eles a longevidade), que tem por função revitalizar automaticamente a imensa árvore. Os galhos mais altos serviam de moradia ao Galo de Ouro, que tem a responsabilidade de guardar os horizontes e denunciar aos deuses a aproximação de seus eternos inimigos, os gigantes. Logo abaixo, mas ainda no topo, há uma águia (Hraesvelg) que, ao bater de suas asas, produz o vento que sopra por todos os mundos.

Abaixo dela temos Asgard (
Terra dos Aesir), governado por Odin e sua esposa, Frigga. É lá que fica o Valhala (Salão dos assassinados), local onde os guerreiros vikings eram recebidos após terem morrido com honra, em batalha. Metade das almas passa seus dias treinando em combates, e desfrutando de grandes banquetes e orgias à noite. Elas formam o "Exército das Almas Vivas". A outra metade segue para Folkvang, o palácio de Freyja.

Também nos galhos se encontra Vanaheimr (Lar dos Vanir), que são uma outra categoria de deuses, ligados à fertilidade, prosperidade, sabedoria e capacidade de ver o futuro (enquanto os Aesir são mais guerreiros e ligados à magia). Há muita rivalidade entre esses dois tipos de deuses.

Ainda no alto, temos Álfheimr, o Lar dos Elfos. É onde vivem os
elfos luminosos, criaturas de beleza inenarrável. Brilhantes como o Sol, vestem-se de forma delicada e transparente. São amigos de homens e deuses.

Odin e seus irmãos usaram o corpo do gigante Ymir para criar Midgard (
Terra Média), o mundo dos homens, situado em volta do tronco de Yggdrasil. A carne de Ymir se tornou a terra. O sangue formou lagos e oceanos. Dos ossos, formaram-se as montanhas. Seus dentes e fragmentos de ossos são as pedras. Os cabelos formaram árvores. O crânio de Ymer formou o céu, e foi sustentado no alto por 4 anões, chamados Norðri (Norte), Suðri (Sul), Austri (Leste) e Vestri (Oeste). Midgard está unida a Asgard por uma ponte em forma de arco-íris, chamada Bifröst. Construída pelos Aesir, era guardada pelo deus Heimdall, que nunca dormia.

Jötunheimr é a Terra dos gigantes. Quando Ymer morreu, o derramamento de sangue foi tão volumoso que acabou afogando quase toda a raça de gigantes (que viviam no início dos tempos). Salvaram-se apenas Bergelmir e sua mulher, que fugiram num barco e chegaram à montanha de Jötunheim, onde fundaram uma cidade chamada Utgard, separada da terra dos homens pelo vasto oceano (que é protegido/circundado pela serpente Jörmungandr, que é tão grande que toca o próprio rabo, como o Uroboros).

Muspelheim (Terra do fogo) é o lar dos demônios de fogo, liderados por Surtur (seria a inspiração para o Balrog?).

Nas raízes de Yggdrasil está o mundo de Svartalfheim (Lar dos elfos escuros). Eles são a contraparte decadente dos elfos luminosos, e vivem no subterrâneo, pois o Sol pode transformá-los em pedra. O termo elfo "escuro" pode ser uma sugestão em relação ao seu lugar de residência, muito mais do que de sua natureza presumida, embora fossem descritos como mesquinhos e incômodos para seres humanos. Assim como os anões, os elfos escuros cresceram a partir das larvas da carne de Ymir, mas os anões vivem no subterrâneo de Midgard, em Nidavellir (os Campos escuros). Os elfos escuros são, freqüentemente, apontados como responsáveis por muitas das maldades que ocorrem à humanidade. Daí a palavra alemã para pesadelo: Albtraum (
sonho de elfo).

Niflheimr (Terra das névoas) é um mundo de gelo eterno, onde vivem os anões e o reino dos Nibelungos. Baseado nessa mitologia, o compositor Richard Wagner não só compôs, como escreveu a história de sua ópera O Anel do Nibelungo (Der Ring des Nibelungen). O centro desta história é um anel mágico, que foi forjado pelo anão Alberich (o Nibelungo do título), cuja posse garante poder sobre todo o mundo. Diversas personagens míticas lutam por 3 gerações pela posse do objeto, incluindo Wotan, o chefe dos deuses. Qualquer semelhança com O Senhor dos Anéis não é mera coincidência (embora Tolkien diga que não). É dito que as raízes mais profundas da árvore Yggdrasil estão enterradas em Niflheimr. Lá existe um dragão chamado Nidhogg, que guarda uma fonte mágica e fica roendo as raízes da árvore com o objetivo de a destruir, mas existem vários animais que distraem Nidhogg, e um deles é o esquilo Ratatosk. É ele que alimenta a troca de insultos entre Nidhogg e águia que fica no topo dos galhos de Yggdrasil.

Ironicamente é nas profundezas de Niflheimr (e não na Terra do fogo) onde fica a coisa mais próxima do inferno na mitologia nórdica: Helheimr (Lar de Hel). Mergulhado em perpétua escuridão, e guardado pelo gigantesco cão Garm, Helheimr é governado por Hel, deusa da morte, e é pra lá que as pessoas vão quando morrem sem glória, doentes ou com idade avançada, além de crianças e mulheres. Ao contrário do que sugere a associação com a palavra Hell (inferno) em inglês, em Helgardh não há senso de punição para os mortos. Helgardh é um mundo dentro de um mundo (de Niflheimr), o reino mais frio e baixo na ordem total do universo, abaixo da terceira raiz de Yggdrasil.

Mitologia Nórdica - Parte 2

:: Acid ::

Após uma introdução à cosmogonia e lugares da mitologia nórdica na parte 1 de nosso post, vamos conhecer um pouco mais os personagens principais, e como os deuses influenciaram até os dias da semana.

ODIN

Odin (ou Woden) é o deus Todo-Poderoso da mitologia nórdica. Seu nome em norueguês arcaico significa Fúria, Excitação, mas também Poesia e Mente. Odin era o deus da sabedoria; ele atirou um de seus olhos no Poço de Mimir em troca de um gole de sabedoria; ele também se enforcou, pendurando-se na árvore Yggdrasil por 9 dias, apenas para obter o conhecimento do mundo dos mortos (e de lá nos trouxe as Runas), sendo revivido depois por magia. Odin se mantinha informado sobre os acontecimentos de toda a Terra através de seus dois corvos, Hugin (Pensamento) e Munin (Memória). A mitologia de Odin compartilha características com a do deus grego Mercúrio, e do deus celta Lugus. Nas batalhas Odin é quase sempre representado com a sua lança Gungnir na mão, com seu cavalo de oito pernas Sleipnir, com seus dois corvos e dois lobos de cada lado. O símbolo rúnico de Odin é o Valknut, composto por 3 triângulos entrelaçados, que é usado até hoje como escudo do time de futebol da Alemanha.
A quarta-feira possui o nome Wednesday nos países anglo-americanos porque deriva do inglês arcaico Wodnesdæg (Dia de Woden), que por sua vez é baseado no latim "Dia de Mercúrio".
Outro dado interessante sobre Odin é que ele pode ter iniciado o folclore do Papai Noel. Na festa de solstício de inverno (Yule) Odin cavalga os céus no seu cavalo, e as crianças enchem suas botas com cenouras, açúcar ou feno, e as deixam próximo à lareira para alimentar o cavalo em sua jornada; em agradecimento, Odin deixava doces e presentes nas botas. Diz-se que a prática sobreviveu até a cristianização dos vikings, e após isso Odin foi associado a São Nicolau. Odin também se disfarçava de andarilho, com um cajado, e nessas ocasiões usava o nome Vegtam; Tolkien admite que baseou o seu personagem Gandalf (de "O Senhor dos Anéis") nesta versão disfarçada do deus nórdico.

FRIGG

É a personificação do feminino no mito nórdico. Ela é a esposa de Odin, mas também atua como mãe e conselheira. Possui o poder de profetizar. Sua história carrega consigo muitas semelhanças com a de outra deusa nórdica, Freyja, que é esposa do cabeça dos Vanir, Odhr (Louco, Furioso), que por sua vez traz similaridades com Odin. O nome das duas compartilha a mesma raiz Frijjo (Amada, Dama), e estudiosos crêem que o mito delas tem origem numa remota deusa germânica do amor, que pode ser associada à deusa Vênus. Tanto que o nome sexta-feira, no inglês, é Friday porque é o "dia de Frijjo", ou seja, o Dia da Dama.

MIMIR

Pelas profundezas de Jötunheimr (Terra dos gigantes) passa uma das raízes principais de Yggdrasil, que termina numa fonte que traz sabedoria e inteligência àquele que bebe de sua água. Ela era guardada por Mimir (Aquele que pensa). Embora algumas obras o coloquem como deus da sabedoria, Mimir pertencia à raça dos gigantes, e era famoso por sua inteligência e prudência. A Fonte é tão cobiçada que Odin não hesitou em trocar
um de seus olhos por um pouco dessa água. Mimir foi decapitado durante a guerra entre Aesirs e Vanirs, mas Odin não se fez de rogado e passou a carregar sua cabeça pra lá e pra cá, de forma a consultá-la em momentos críticos.

THOR

Thor é filho de Odin com Fjörgyn (Terra), e é o deus do
trovão. É o mais forte dentre os deuses, e por isso mesmo está associado a Júpiter e Hércules. Sua esposa é Sif, a deusa da colheita, com quem teve uma filha, Thrud (Força); já na união com a giganta Jarnsaxa, teve os filhos Magni (Forte) e Modi (Raivoso). A arma de Thor é um martelo mágico chamado Mjolnir, que nunca erra o alvo e sempre retorna às suas mãos. Ele percorre os céus numa carruagem puxada por dois bodes, e diz-se que quando ele passa as montanhas tremem (o que origina os trovões) e os céus ficam em chamas (que são os raios).
O Reino de Thor em Asgard é Thrudheimr, onde ele recebe os pobres depois que eles morrem. Os anglo-saxões e escandinavos deram o nome de Thor ao quinto dia da semana (
Thursday).
Nos anos 60 Odin decidiu que seu filho precisava de humildade, e mandou-o para a Terra sem memórias, no corpo de Donald Blake, um estudante de medicina manco e fraco. Após graduar-se, seu passado divino é revelado e ele passa a partilhar as duas identidades, e a defender a Terra de todo o mal (Ok, essa última parte não é da mitologia nórdica, e sim da mitologia nerd, mas achei por bem compartilhar com vocês).

LOKI

Loki é um exímio filho da mãe, um autêntico trickster que está entre as figuras mais complexas da mitologia nórdica. Deus do
fogo, da trapaça e da travessura, também está ligado à magia e pode assumir a forma de vários animais - exceto de aves - e outros seres. Loki não pertence aos Aesir - embora viva com eles - e sim aos gigantes. É considerado um símbolo da maldade, traiçoeiro, de pouca confiança; e, embora suas artimanhas geralmente causem problemas a curto prazo aos deuses, estes frequentemente se beneficiam, no fim, das travessuras de Loki. Sua criatividade é muitas vezes usada para lidar com situações sem esperança, e é respeitado até mesmo por Odin. Thor gostava da companhia de Loki, apesar do talento desse embusteiro para colocar ambos em confusões. É provável que conceitos cristãos, introduzidos mais tarde na Escandinávia, acabaram por destacar apenas suas piores características, já que ter um "vilão" com quem se relacionar (e temer) é bastante didático para o ensinamento do dualismo cristão.
Loki é casado com Sigyn, e com ela teve dois filhos: Nari e Narfi. Em outra época foi casado com a giganta Angrboda, com quem gerou 3 criaturas assustadoras: o lobo Fenrir, a grande serpente Jörmungandr e Hel, a deusa do mundo dos mortos. Loki é uma influência para personagens como o Coringa (do último Batman) e pode ser associado a outras mitologias, como Exu, Hermes, Mercúrio e Didi Mocó.

FENRIR

Fenrir é um lobo gigante que tem 2 filhos: Skoll (Traição) e Hati (O que odeia), que vivem em eterna perseguição a Sól e sua irmã Máni (Lua). Todos os deuses o temiam por conta da "Profecia dos Völva", que assevera que ele, assim como seus irmãos, iriam trazer problemas aos deuses no Ragnarök. Assim, Odin lançou Jörmungandr nas profundezas dos oceanos e enviou Hel para os subterrâneos (Niflheimr), enquanto ordenou que os Aesir tomassem conta do lobo Fenrir. Com o passar do tempo o monstro cresceu cada vez mais forte e preocupou os deuses, por isso eles pensaram em acorrentá-lo. Entretanto Fenrir era realmente temível, e ninguém o faria à força. Por isso propuseram um desafio: pediram, num misto de bajulação e troça, que o lobo testasse sua força com uma certa corrente de ferro que os deuses fizeram, chamada Leyding. Fenrir julgou que aquela corrente não estava à altura de sua força, e então deixou que os deuses o amarrassem. No primeiro chute Fenrir a quebrou. Tempos depois os deuses fizeram um segundo grilhão, 2 vezes mais forte. Disseram a Fenrir que se ele quebrasse essa corrente alcançaria grande fama pela sua força. Fenrir considerou que ele deveria enfrentar alguns riscos se fosse pra ficar famoso. Então permitiu que eles colocassem o grilhão para, com um pouco mais de trabalho, despedaçá-lo.
Por fim Odin pediu ajuda aos anões, e eles fizeram um grilhão chamado Gleipnir, que era macio como a seda e foi feito com ingredientes mágicos. Os deuses levaram Fenrir para uma ilha deserta e o desafiaram a quebrar Gleipnir. Estranhando que a corrente era muito delicada, e suspeitando de uma armadilha, o lobo concorda, mas com a condição de que um dos deuses pusesse a mão em sua boca, como sinal de "boa fé" (como garantia de que, se ele não se libertasse por si só, fosse solto pelos outros). Obviamente nenhum deles se ofereceu de imediato. Percebendo o impasse, um deus se adianta para o sacrifício.

TYR

Tyr (ou Tiw) era o único deus capaz de alimentar o lobo Fenrir. Conhecido por sua coragem, ele encara o desafio e enfia a mão direita entre as mandíbulas do lobo, enquanto os outros deuses o amarram com Gleipnir. Tyr já não pode soltar-se, e Fenrir inicia a tentativa de quebrar as correntes, só que dessa vez quanto mais o lobo fazia força, mais Gleipnir apertava-se em seu pescoço. Furioso, ele fechou vigorosamente suas enormes mandíbulas e decepou a mão de Tyr. Fenrir se debatia e uivava de ira por ter ficado aprisionado, e vendo isso todos riram (exceto Tyr, claro, que perdera a mão). Tyr ainda teve a oportunidade de se vingar, escorando com uma espada a boca do lobo aberta, para que ele não fizesse tanto barulho. E assim Fenrir ficou acorrentado até a chegada do fim dos tempos.
Tyr passou a ser chamado de "a sobra do Lobo", que é uma metáfora poética para designar Glória. Na língua nórdica Tyr significa "deus", quando é usado no nome de alguém (ex: Hangatyr é um dos nomes do Odin, e significa deus dos enforcados). Tyr também virou nome de dia da semana. Como ele foi associado ao deus romano Marte, nossa terça-feira (no latim Dia de Marte) se tornou em inglês Tiw's Day = Tuesday (Dia de Tyw).

HEL

Filha de Loki com a giganta Angurboda. Sabendo quão problemática ela iria ser no futuro, Odin a enviou para Niflheimr, e deu a ela autoridade sobre os 9 mundos, no sentido de abrigar os
mortos. Tornou-se então a personificação da morte, e seu domínio em Niflheimr passou a se chamar Helheimr (Lar de Hel), que ficou associado ao inferno após a cristianização dos nórdicos. Este inferno era simplesmente o mundo abaixo da terra para onde iam os homens depois de sua morte, mas não era um lugar de castigo (embora nem sempre fosse legal viver por lá). A metade de seu rosto era de cor clara, e a outra metade enegrecida.

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